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domingo, 23 de outubro de 2011
mercury
"I opened my fingers a crack, like a child with a secret, and smiled at the silver globe cupped in my palm. If I dropped it, it would break into a million little replicas of itself, and if I pushed them near each other, they would fuse, without a crack, into one whole again. I smiled and smiled at the small silver ball."
- The Bell Jar
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
terça-feira, 20 de setembro de 2011
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Lágrimas e Suspiros
"E o mesmo acontece com os interiores, que devem ser criados em função das suas possibilidades de oferecer a luminosidade que nós desejamos obter: madrugadas que se assemelham a crepúsculos, a luz pálida e doce de um bosque, a misteriosa e indirecta iluminação dos dias de neve, a luz fraca de um candeeiro de petróleo. A doçura dos dias soalheiros de outono. (...)
Mas haverá uma particularidade: todos os interiores serão vermelhos, e em tonalidades diversas. Não me perguntem a razão, porque eu não sei. Já tentei descobri-la e só encontrei explicações umas mais cómicas que outras. A mais obtusa e também mais defensável, é a de que se trata de algo muito subjectivo, porque eu, desde a infância, sempre imaginei o interior da alma como uma membrana húmida de tintas vermelhas."
Mas haverá uma particularidade: todos os interiores serão vermelhos, e em tonalidades diversas. Não me perguntem a razão, porque eu não sei. Já tentei descobri-la e só encontrei explicações umas mais cómicas que outras. A mais obtusa e também mais defensável, é a de que se trata de algo muito subjectivo, porque eu, desde a infância, sempre imaginei o interior da alma como uma membrana húmida de tintas vermelhas."
... Ingmar Bergman.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
sábado, 28 de novembro de 2009
- Livro - 28.11.09 -
"Já aos oito anos adormecia com as mãos uma na outra, imaginando que se agarrava ao homem que amava, ao homem da sua vida. Portanto, é perfeitamente compreensível que segure tão afincadamente a mão de Tomas sempre que está a dormir: foi para isso que se preparou, foi para isso que treinou desde a infância."
- a insustentável leveza do ser
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
- T1 de José Maria Vieira Mendes -
- Devias sair.
- O Chico?
- Faz-te mal ficares tanto tempo em casa.
- Tens a chave?
- Qual chave? (encosta a mão na testa de Alberto) Não tens febre.
- Não sinto nada. Ás vezes nem as pernas.
- Tens comido?
- Um bocado.
- O quê?
- Baratas.
- Baratas?
- Baratas o quê?
- O quê?
- O que é que disseste?
- Eu?
- Acho que não percebi.
- O que é que tu disseste?
- Estás bem?
- Não estou a perceber nada, Alberto. Tens comido?
- Tenho.
- O quê?
.
- Ainda estás chateada?
- Ainda. Mais ou menos.
- Acho que às vezes não percebo porque é que te chateias tanto.
- É preciso pensar mais, Alberto.
- Eu penso.
- Mais imaginação. Ouvir melhor. Estar mais atento. Já reparaste no tempo?
- Tem chovido?
- Devias abrir as persianas durante o dia. Faz falta.
- Para quê?
- Gostas de estar comigo?
- Gosto.
- Tens medo de mim?
- Porquê?
- Gostas de mim?
- Gos-to.
- Quando é que gostas mais de mim?
- Quando?
- Eu posso desaparecer.
- Não podes nada.
- Posso.
- Os teus pés. Em cima do muro.
- Isso já foi à muito tempo.
- Mas não desaparece.
- Pois não, deixa estar, Alberto. Está tudo bem.
- Sou velho. Tenho artroses nos dedos.
- Devias mexer-te.
- Está a ficar estranho.
- Está?
- Os teus olhos. (pausa) Não percebo.
Pausa. Sara beija a boca de Alberto.
sábado, 25 de julho de 2009
- "O Medo" -
"Tenho do medo uma ideia física, material, localizada. O medo pode ser um objecto que codifica um sofrimento - acontecido ou por acontecer. É, em qualquer caso, ele próprio um corpo exterior ao nosso corpo. (Nem que seja por rejeição: não sei a química nem a biologia do suor, mas as suas gotas são, perante a ameaça, uma forma de expulsar algo que nos agarra a pele por dentro, como se a angústia pudesse amarrotar a sua própria alma... É assim que os cães conhecem sempre o nosso medo dos cães, quando ele existe, e é por isso que podemos racionalizar o medo mas nunca disfarçá-lo. Porque, quando ele nos domina, o medo tem cheiro)"
- Pedro Rosa Mendes
"quando era criança ouvi contar que deus se escondia por todo o lado; nas águas turvas de sabão, nos poços, na folhagem espessa do loureiro ao fundo do jardim, no florir das acácias ou na corola violácea de uma rosa. no entanto, parecia-me que o lugar mais provável era o cimo das árvores - não sei porquê - talvez por achar que deus tem de manter uma certa distância da terra, do estrume. nunca consegui uma explicação para a escolha que fizera: deus escondia-se no cimo das árvores porque achava um pouco exagerado que ele se encontrasse em tudo e por todo o lado, não era possível. se assim fosse onde poderíamos nós esconder-nos dele?
subia as árvores e ficava horas a fio acocorado na folhagem, em silêncio esperava que deus se me revelasse. um dia surpreendi um melro no ninho e repentinamente veio-me à ideia que deus se escondia dentro de um ovo. o melro, coitado, ao ver-me voara assustado, agarrei no ovo e trouxe-o para casa.
conservei-o guardado muito tempo depois de ser criança, dentro de uma caixinha com algodão. às vezes vigiava-o durante a noite, até que o esqueci. deixou mesmo de me aparecer em sonhos; o ovo que, julgava eu, continha deus.
anos mais tarde, numa mudança de casa, reencontro a caixa no fundo de uma gaveta. o ovo estava aparentemente intacto, mas mal lhe toquei desfez-se, cheirava mal, deus, com o tempo, também tinha apodrecido no meu coração."
- Al Berto
sexta-feira, 5 de junho de 2009
"As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant" de R.W.Fassbinder
Petra - A experiência, Sidónia, tem de ser acumulada pelo próprio. Acredita, sinto-me feliz por ter vivido o que vivi. O que nós aprendemos ninguém mais nos pode tirar. Pelo contrário. A experiência amadurece-nos.
Sidónia - Não sei, Petra, quando o fim já se está a ver desde o princípio será que a experiência vale a pena?
segunda-feira, 20 de abril de 2009
- "Apresentação da Noite" Al Berto -
- resta-nos adormecer onde eclode a borboleta
e balbuciar dentro do sonho as palavras que nunca ousaremos dizer
- fumamos com a obsessão de um rio a desaguar no amanhecer
a tua sombra olha-me e eu vejo o límpido fundo dos meus olhos
procurávamos nossos corpos no reflexo um do outro
(pausa)
- amolecidos corpos fissuram-se
explodem
a cidade ecoa noite adiante esse grito
- os movimentos são expiados através dum espelho
e nada sabemos acerca daquele mar
nem das máscaras com que disfarçámos o remorso
nada sabemos sobre o ciúme
apenas estamos aqui e sufocamos
- pesa-nos no peito um resíduo de cidade
no entanto sabemos que não há mais tempo para nos olharmos
a fuga só é possível para o interior de nós mesmos
e um dia
quem sabe? chegaremos
ao princípio da memória
(pausa)
- é noite
logo
a primeira sensação da manhã será feita de aves
- um cigarro
um cigarro vai certamente acalmar-me
- lentamente os dedos aperfeiçoaram esta arte de estarem quietos
sussurrantes sobre os corpos não a deslizarem
não a percorrerem os lugares antigos onde o desejo pulsa
as mãos redescobriram o silêncio
praticam essa arte muito antiga de na imobilidade tudo desejarem
domingo, 5 de abril de 2009
- "4:48 Psicose" Sarah Kane -
ela
"às vezes viro-me e cheiro o teu cheiro e não consigo continuar não consigo continuar foda-se sem exprimir esta merda física horrível merda dolorosa saudade que tenho de ti. não posso acreditar que sinta isto por ti e tu não sintas nada. não sentes nada? (silêncio) não sentes nada?"
ele
"sinto a tua dor, mas não posso pôr a tua vida nas minhas mãos. (silêncio) vais ficar bem. és forte. sei que vais ficar bem porque gosto de ti e não se pode gostar de uma pessoa que não gosta dela própria. as pessoas que temo são aquelas de quem não gosto, porque se odeiam tanto a si próprias que não deixam mais ninguém gostar delas. mas gosto mesmo de ti. vou sentir a tua falta. e sei que vais ficar bem."
eles
o - desculpa.
a - não é culpa minha.
o - desculpa isto foi um erro.
a - não é culpa minha.
o - não. não é culpa tua. desculpa. (silêncio) estava a tentar explicar -
a - eu sei. eu estou zangada porque percebo, não porque não percebo.
quinta-feira, 2 de abril de 2009
- "Sexual Perversity in Chicago and The Duck Variations" David Mamet -
- Sexual Perversity in Chicago -
"Joan: Men.
Deb: Yup.
Joan: They're all after one thing.
Deb: Yes. I know. (Pause)
Joan: But it's never the same thing."
"Dan: I love you.
Deb: Does it frighten you to say that?
Dan: Yes.
Deb: It's only words. I don't think you should be frightened by words."
"Deb: "Thank you" (Pause) Is that right?
Dan: Fuck you.
Deb: No hard feelings.
Dan: Who said there were?
Deb: You know there are.
Dan: Then why say there aren't?"
- The Duck Variations -
"G - Ducks Like to go...
E - Yes?
G - Where it's nice...
E - Ehhh?
G - At that time!
E - Of course.
G - And they're made so they just go. Something inside says it's getting a little cold... a little too cold...
E - Like humans, they don't like cold.
G - And there they go.
E - There they go.
G - And the same when it's warm.
E - They come back."
"E - There's nothing you could possibly name that doesn't have a purpose. Don't even bother to try. Don't waste your time.
G - I'm in no hurry.
E - It's all got a purpose. The very fact that you are sitting right here right now on this bench has got a purpose.
G - And so, by process of elimination, does the bench.
E - Now you're talking sense.
G- Darn Tootin'.
E - The law of the Universe is a law unto itself.
G - Yes. Yes.
E - And woe be to the man who fools around.
G - You can't get away with nothing.
E - And if you could it would have a purpose.
G - Nobody knows that better than me.
E - ... Well put."
"E - No. I don't believe they can fly until later life.
G - But it's possible.
E - It's possible, but you're wrong.
G - ... As a matter of fact I do remember reading somewhere that many small ducks do possess the ability to fly at birth.
E - I do think you are mistaken.
G - No. It could be... But no.
E - Yes. I believe you're sadly wrong.
G - No. I wouldn't swear to it...
E - No.
G - But I'd almos swear I've read that somewhere...
E - Yes, I'm fairly sure you're wrong on that one point.
G - Some little-known group of ducks.
E - No. All my knowledge of nature tells me I must say no.
G - A very small group of ducks.
E - I can not let that by.
G - But I think...
E - It's possible you misread the...
G - Possibly, but...
E - No, no. No. I must still stick to my saying no. No.
G - Perhaps I misread it. What a thing, however. To be able to fly. In later life."
"Joan: Men.
Deb: Yup.
Joan: They're all after one thing.
Deb: Yes. I know. (Pause)
Joan: But it's never the same thing."
"Dan: I love you.
Deb: Does it frighten you to say that?
Dan: Yes.
Deb: It's only words. I don't think you should be frightened by words."
"Deb: "Thank you" (Pause) Is that right?
Dan: Fuck you.
Deb: No hard feelings.
Dan: Who said there were?
Deb: You know there are.
Dan: Then why say there aren't?"
- The Duck Variations -
"G - Ducks Like to go...
E - Yes?
G - Where it's nice...
E - Ehhh?
G - At that time!
E - Of course.
G - And they're made so they just go. Something inside says it's getting a little cold... a little too cold...
E - Like humans, they don't like cold.
G - And there they go.
E - There they go.
G - And the same when it's warm.
E - They come back."
"E - There's nothing you could possibly name that doesn't have a purpose. Don't even bother to try. Don't waste your time.
G - I'm in no hurry.
E - It's all got a purpose. The very fact that you are sitting right here right now on this bench has got a purpose.
G - And so, by process of elimination, does the bench.
E - Now you're talking sense.
G- Darn Tootin'.
E - The law of the Universe is a law unto itself.
G - Yes. Yes.
E - And woe be to the man who fools around.
G - You can't get away with nothing.
E - And if you could it would have a purpose.
G - Nobody knows that better than me.
E - ... Well put."
"E - No. I don't believe they can fly until later life.
G - But it's possible.
E - It's possible, but you're wrong.
G - ... As a matter of fact I do remember reading somewhere that many small ducks do possess the ability to fly at birth.
E - I do think you are mistaken.
G - No. It could be... But no.
E - Yes. I believe you're sadly wrong.
G - No. I wouldn't swear to it...
E - No.
G - But I'd almos swear I've read that somewhere...
E - Yes, I'm fairly sure you're wrong on that one point.
G - Some little-known group of ducks.
E - No. All my knowledge of nature tells me I must say no.
G - A very small group of ducks.
E - I can not let that by.
G - But I think...
E - It's possible you misread the...
G - Possibly, but...
E - No, no. No. I must still stick to my saying no. No.
G - Perhaps I misread it. What a thing, however. To be able to fly. In later life."
- O Indispensável de Calvin&Hobes -
acabei de tomar uma decisão importante.
mas já não me lembro se foi relevante.
e isto só prova que as escolhas prementes
parecem por vezes algo inconsequentes.
saí de casa muito concentrado.
esquerda ou direita - que rumo terei tomado?
mas não hesitei ao escolher a direcção,
totalmente absorto em profunda introspecção.
sem saber bem como, vagueei p'la estrada fora
e eis por que me encontro neste sítio a esta hora.
sexta-feira, 27 de março de 2009
- "O Estrangeiro" Albert Camuss -
"Era verdade. Quando estava lá em casa a mãe passava o tempo a seguir-me em silêncio, com os olhos. Nos primeiros dias de asilo, chorava muitas vezes. Mas era por causa do hábito. Ao fim de alguns meses choraria se a tirassem do asilo, ainda devido ao hábito.
Foi um pouco por isto que, no último ano, quase não a fui visitar. E também porque a visita me tomava o domingo – sem contar esforço para ir até ao autocarro, comprar os bilhetes e fazer duas horas de viagem."
"À saída, e com grande espanto meu, vieram todos apertar-me a mão – como se esta noite, em que não haviamos trocado uma só palavra, tivesse aumentado a nossa intimidade."
"Para o fim do espectáculo beijei-a, mas mal."
"Como não tinha nada para fazer também saí e segui-a durante uns momentos. (...) Acabei por perdê-la de vista e por voltar para trás. Achei que era uma mulher estranha, mas depressa a esqueci."
"(...)Maria estava a dizer-me que era preciso ter esperança. Anuí: "Sim." Ao mesmo tempo olhava-a e sentia vontade de lhe apertar o ombro por cima do vestido. Sentia vontade desse tecido delicado e, fora isso, não sabia muito bem em que é que havia de ter esperança."
"Acabo de traçar o fio dos acontecimentos que levaram este homem a matar com pleno conhecimento de causa. Insisto neste ponto. Pois não se trata de um crime banal, de um acto impensado que poderia ser atenuado por certas circunstâncias. Este homem, meus senhores, é um homem inteligente. Ouviram-no falar, não é verdade? Sabe responder. Conhece o valor das palavras. E não se pode dizer que tenha agido sem dar pelo que estava a fazer."
"Censurava-me por não ter prestado atenção suficiente às historias de execuções. Deviamos interessar-nos sempre por estas questões. Nunca se sabe o que pode acontecer."
- Salamano -
"Perguntei-lhe o que é que o cão tinha feito. Não me respondeu. Dizia apenas: "Bandido! Cão Nojento!" Percebi que, debruçado sobre o animal, estava a arranjar qualquer coisa na coleira. Falei mais alto. Então, sem se voltar para trás, respondeu-me com uma espécie de raiva reprimida: "Está sempre aqui."
"Disse ao velho Salamano que podia arranjar outro cão, mas ele respondeu-me, com toda a razão, aliás, que estava habituado àquele."
"Espero que os cães não ladrem esta noite. Julgo sempre que é o meu."
(Também acabei de ler o "Werther", mas pareceu-me que sería infimamente injusto para comigo citá-lo... neste momento, pelo menos.)
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