quinta-feira, 27 de agosto de 2009

- T1 de José Maria Vieira Mendes -


- Devias sair.
- O Chico?
- Faz-te mal ficares tanto tempo em casa.
- Tens a chave?
- Qual chave? (encosta a mão na testa de Alberto) Não tens febre.
- Não sinto nada. Ás vezes nem as pernas.
- Tens comido?
- Um bocado.
- O quê?
- Baratas.
- Baratas?
- Baratas o quê?
- O quê?
- O que é que disseste?
- Eu?
- Acho que não percebi.
- O que é que tu disseste?
- Estás bem?
- Não estou a perceber nada, Alberto. Tens comido?
- Tenho.
- O quê?

.

- Ainda estás chateada?
- Ainda. Mais ou menos.
- Acho que às vezes não percebo porque é que te chateias tanto.
- É preciso pensar mais, Alberto.
- Eu penso.
- Mais imaginação. Ouvir melhor. Estar mais atento. Já reparaste no tempo?
- Tem chovido?
- Devias abrir as persianas durante o dia. Faz falta.
- Para quê?
- Gostas de estar comigo?
- Gosto.
- Tens medo de mim?
- Porquê?
- Gostas de mim?
- Gos-to.
- Quando é que gostas mais de mim?
- Quando?
- Eu posso desaparecer.
- Não podes nada.
- Posso.
- Os teus pés. Em cima do muro.
- Isso já foi à muito tempo.
- Mas não desaparece.
- Pois não, deixa estar, Alberto. Está tudo bem.
- Sou velho. Tenho artroses nos dedos.
- Devias mexer-te.
- Está a ficar estranho.
- Está?
- Os teus olhos. (pausa) Não percebo.

Pausa. Sara beija a boca de Alberto.

Sem comentários:

Enviar um comentário