sábado, 25 de julho de 2009
- "O Medo" -
"Tenho do medo uma ideia física, material, localizada. O medo pode ser um objecto que codifica um sofrimento - acontecido ou por acontecer. É, em qualquer caso, ele próprio um corpo exterior ao nosso corpo. (Nem que seja por rejeição: não sei a química nem a biologia do suor, mas as suas gotas são, perante a ameaça, uma forma de expulsar algo que nos agarra a pele por dentro, como se a angústia pudesse amarrotar a sua própria alma... É assim que os cães conhecem sempre o nosso medo dos cães, quando ele existe, e é por isso que podemos racionalizar o medo mas nunca disfarçá-lo. Porque, quando ele nos domina, o medo tem cheiro)"
- Pedro Rosa Mendes
"quando era criança ouvi contar que deus se escondia por todo o lado; nas águas turvas de sabão, nos poços, na folhagem espessa do loureiro ao fundo do jardim, no florir das acácias ou na corola violácea de uma rosa. no entanto, parecia-me que o lugar mais provável era o cimo das árvores - não sei porquê - talvez por achar que deus tem de manter uma certa distância da terra, do estrume. nunca consegui uma explicação para a escolha que fizera: deus escondia-se no cimo das árvores porque achava um pouco exagerado que ele se encontrasse em tudo e por todo o lado, não era possível. se assim fosse onde poderíamos nós esconder-nos dele?
subia as árvores e ficava horas a fio acocorado na folhagem, em silêncio esperava que deus se me revelasse. um dia surpreendi um melro no ninho e repentinamente veio-me à ideia que deus se escondia dentro de um ovo. o melro, coitado, ao ver-me voara assustado, agarrei no ovo e trouxe-o para casa.
conservei-o guardado muito tempo depois de ser criança, dentro de uma caixinha com algodão. às vezes vigiava-o durante a noite, até que o esqueci. deixou mesmo de me aparecer em sonhos; o ovo que, julgava eu, continha deus.
anos mais tarde, numa mudança de casa, reencontro a caixa no fundo de uma gaveta. o ovo estava aparentemente intacto, mas mal lhe toquei desfez-se, cheirava mal, deus, com o tempo, também tinha apodrecido no meu coração."
- Al Berto
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