sexta-feira, 27 de março de 2009

- "O Estrangeiro" Albert Camuss -


"Era verdade. Quando estava lá em casa a mãe passava o tempo a seguir-me em silêncio, com os olhos. Nos primeiros dias de asilo, chorava muitas vezes. Mas era por causa do hábito. Ao fim de alguns meses choraria se a tirassem do asilo, ainda devido ao hábito.
Foi um pouco por isto que, no último ano, quase não a fui visitar. E também porque a visita me tomava o domingo – sem contar esforço para ir até ao autocarro, comprar os bilhetes e fazer duas horas de viagem."

"À saída, e com grande espanto meu, vieram todos apertar-me a mão – como se esta noite, em que não haviamos trocado uma só palavra, tivesse aumentado a nossa intimidade."

"Para o fim do espectáculo beijei-a, mas mal."

"Como não tinha nada para fazer também saí e segui-a durante uns momentos. (...) Acabei por perdê-la de vista e por voltar para trás. Achei que era uma mulher estranha, mas depressa a esqueci."

"(...)Maria estava a dizer-me que era preciso ter esperança. Anuí: "Sim." Ao mesmo tempo olhava-a e sentia vontade de lhe apertar o ombro por cima do vestido. Sentia vontade desse tecido delicado e, fora isso, não sabia muito bem em que é que havia de ter esperança."

"Acabo de traçar o fio dos acontecimentos que levaram este homem a matar com pleno conhecimento de causa. Insisto neste ponto. Pois não se trata de um crime banal, de um acto impensado que poderia ser atenuado por certas circunstâncias. Este homem, meus senhores, é um homem inteligente. Ouviram-no falar, não é verdade? Sabe responder. Conhece o valor das palavras. E não se pode dizer que tenha agido sem dar pelo que estava a fazer."

"Censurava-me por não ter prestado atenção suficiente às historias de execuções. Deviamos interessar-nos sempre por estas questões. Nunca se sabe o que pode acontecer."


- Salamano -

"Perguntei-lhe o que é que o cão tinha feito. Não me respondeu. Dizia apenas: "Bandido! Cão Nojento!" Percebi que, debruçado sobre o animal, estava a arranjar qualquer coisa na coleira. Falei mais alto. Então, sem se voltar para trás, respondeu-me com uma espécie de raiva reprimida: "Está sempre aqui."

"Disse ao velho Salamano que podia arranjar outro cão, mas ele respondeu-me, com toda a razão, aliás, que estava habituado àquele."

"Espero que os cães não ladrem esta noite. Julgo sempre que é o meu."


(Também acabei de ler o "Werther", mas pareceu-me que sería infimamente injusto para comigo citá-lo... neste momento, pelo menos.)

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